Projeto Aprender a Pensar – Filosofia com Crianças


Se Platão e Aristóteles estiverem corretos e a filosofia começar de facto com a admiração e o espanto perante o que somos e o que o mundo é ou pode ser, então as crianças são naturalmente filósofas, uma vez que, em função do seu estado de maravilhamento perante si próprias, os outros e o mundo, colocam de forma espontânea questões de natureza filosófica – Como é que sabemos algo?, Como é que o corpo e a mente estão ligados? Quem sou eu? Se Deus existe, quem criou Deus?, Porque é que mentir é errado?, O que é pensar? – revelando dessa forma a sua predisposição natural para a filosofia. Assim, as crianças são filósofos em potência que necessitam de se tornar filósofos em ato. De facto, não é a questão colocada pela criança mas sim o modo como a questão é tratada e investigada que faz da criança um filósofo. Assim sendo, é necessário que a criança seja capaz não apenas de colocar questões filosóficas e de responder acriticamente às mesmas, mas de pensar criticamente nas várias respostas possíveis, nas razões que sustentam cada uma das repostas e nas objeções a que se encontram sujeitas, como condição sine qua non de aceder ao universo filosófico.

O projeto Aprender a Pensar pretende constituir-se como um espaço e um tempo em que as crianças poderão não só expressar livremente a sua predisposição filosófica mas, fundamentalmente, integrar verdadeiras comunidades de investigação filosófica em que, ao adquirirem os instrumentos críticos que lhes permitirão pensar filosoficamente, passarão a ser filósofos. Assim, a filosofia com crianças revela-se um espaço de questionamento, de problematização, de reflexão, de autoconhecimento e de autonomia com o objetivo pedagógico de contribuir para o desenvolvimento e compreensão da linguagem e das capacidades críticas e criativas das crianças de modo a promover o seu pensamento.

Por outro lado, o objetivo do Aprender a Pensar não é fazer filosofia para crianças, mas sim filosofia com crianças. Este termo coloca a ênfase na espontaneidade das mentes na idade da admiração e do espanto e no desenvolvimento, por si mesmas, das competências e capacidades específicas do questionamento e reflexão filosóficos, em que as crianças desempenham o papel de protagonistas, tendo o professor um papel secundário, de intervenção minimalista, assumindo-se, essencialmente, como um possibilitador do pensar filosófico autónomo. Trata-se de, utilizando metodologias adequadas e uma linguagem acessível ao estado cognitivo do auditório, desenvolver nas suas mentes competências críticas, de forma a que seja possível fazer filosofia com as crianças, levando-as a refletir e a debater de forma séria e a pensarem sobre problemas de natureza filosófica.

Aprender a Pensar: METODOLOGIA DO PROJETO

A filosofia com crianças é um programa pedagógico criado por Matthew Lipman, nos Estados Unidos, no final dos anos sessenta que visa desenvolver o espírito crítico, ensina a pensar e a argumentar de uma forma ordenada e coerente, agiliza o pensamento e o discurso, promove a curiosidade e a tolerância intelectual e desenvolve as competências de leitura e escrita. Estas características são transversais a todas as disciplinas e o seu desenvolvimento tem um impacto positivo noutros domínios curriculares.

Esta aprendizagem da atividade de pensar é feita através da criação de um diálogo e tem como fim promover o pensamento de excelência através de uma comunidade de investigação filosófica. Nesta comunidade os participantes são encorajados a falar, a ouvirem-se uns aos outros e a discutirem ideias filosóficas com a ajuda de um possibilitador.

Em grego método – methodos – designa o caminho que se percorre para chegar ao destino. É a arte de escolher o melhor meio possível para atingir o fim. Assim, a metodologia de Lipman foi concebida para que os participantes assimilem os utensílios necessários para uma contínua construção do pensar bem de modo que reconheçam a pergunta como modo de abrir, problematizar e construir saberes; a investigação criativa como modo de pensar a nossa realidade individual e social; o debate participativo, aberto e fundamentado como prática de conhecimento; a democracia como forma de respeitar e valorizar as nossas diferenças, o trabalho solidário e colaborativo como modo de agir em educação; a resistência crítica frente a qualquer forma de imposição.

As sessões guiam-se por duas linhas orientadoras: aprender a compreender a problematização do tema das perguntas (clarificando as questões, revendo crenças, levantando novas hipóteses para futuras verificações, etc) e desenvolver as capacidades cognitivas e sociais que o processo de reflexão exige (saber perguntar porquê, saber dar e pedir exemplos, clarificar afirmações, identificar contradições, etc). Assim, o projeto pretende cumprir os seguintes objetivos gerais e transversais: desenvolver o espírito crítico; ter consciência de si e do outro; respeitar os seus pares; promover a autonomia na investigação; criar um laboratório de ideias (onde tudo é pensável e discutível); promover a auto-estima; desenvolver uma atitude dialogante e a escuta ativa. Para além das razões de natureza intrínseca, existe evidência factual de que a implementação de projetos de filosofia com crianças, produz os seguintes efeitos[1]:

  • Pensamento autónomo,
  • Competências de pensamento de ordem superior;
  • Motivação e envolvimento ativo no processo de aprendizagem;
  • Melhoria dos resultados em matemática e ciências;
  • Melhoria das competências de cooperação;
  • Melhoria da autoestima;
  • Transferência das competências adquiridas para outras áreas de estudo;
  • Melhoria no comportamento e diminuição do bulling;
  • Melhoria do relacionamento com os seus pares e familiares.

Na Declaração de Paris para a Filosofia, a Unesco reconhece e afirma que a reflexão filosófica, pelo seu caráter de questionamento radical e de permanente análise da estrutura do pensamento e da sua validade, forma espíritos livres e reflexivos capazes de pensarem por si mesmos. De facto, a Unesco considera que a educação filosófica assume um papel fundamental na formação de cada pessoa concreta e é um elemento estruturante na sua capacidade de assumir uma atitude crítica e responsável perante as grandes interrogações da contemporaneidade.

            Em suma, o projeto Aprender a Pensar, pretende ser uma mais valia para o colégio, constituindo-se como um dos elementos na prossecução do objetivo da excelência e da formação integral do aluno enquanto pessoa. A concepção de todo o projeto encontra a sua razão de ser na convicção socrática, expressa na Apologia, de que “uma vida que não é examinada até ao fim não é digna de ser vivida[2]. A construção de uma comunidade filosófica de investigação com crianças na idade da admiração e do espanto será uma oportunidade única para desenvolver as competências de pensamento crítico que lhes permitirão concretizar em ato a sua potencialidade de cogitans (seres pensantes).


[1] Num estudo em larga escala realizado na Escócia em 2001, crianças no grupo experimental tiveram sessões de filosofia com crianças uma vez por semana, durante dezasseis meses. Este facto, produziu, em termos estatísticos, uma melhoria significativa nos resultados de quociente de inteligência (QI)  durante um período de um ano, comparado com crescimento zero nos resultados do grupo de controlo. O mesmo estudo revelou  que a aplicação de um programa de filosofia com crianças permite alcançar ganhos significativos no raciocínio verbal e não verbal e melhorias nas competências comunicacionais, comportamentais, de questionamento, raciocínio, escrita e compreensão. Cf. Topping and Trickey. “Collaborative Philosophical Enquiry for School Children: Cognitive Effects at 10- 12 Years,” British Journal of Educational Psychology (2007).

[2] Cf. PLATÃO, Apologia de Sócrates, 38a.